Na entrevista a seguir, Mario Ramiro, assessor artístico do Festival Claro Curtas, e Marcus Bastos, Coordenador da Comissão de Pré-Seleção, falam das mudanças no campo do audiovisual em tempos de câmeras na palma da mão, contextualizam a história das experiências com diferentes formas de difusão e sublinham a importância da acessibilidade, que, segundo eles, deve ser incorporada ao programa de trabalho de todos os artistas e realizadores na próxima década.
Qual a importância de um festival de cinema aberto a amadores, assim como a profissionais do meio, que incentiva o uso de equipamentos portáteis, de fácil utilização e acesso mais democrático para um universo amplo de pessoas?
Mario Ramiro – A importância é a de despertar o nosso olhar para esse novo formato. As pequenas telas que se abrem nas ferramentas mais democráticas dos dias de hoje, na internet e nos aparelhos celulares, exigem dos realizadores (desses curtas), sejam eles amadores ou profissionais, uma nova forma de pensar o cinema ou o vídeo. Na atual dimensão dessas telas é preciso reaprender a contar uma história, rever o papel dos atores, das coisas e do tempo. Também aqui é preciso capturar o olhar e mantê-lo atento.
Marcus Bastos – A democratização dos processos audiovisuais se dá em diversos níveis, que extrapolam o âmbito de um ou outro festival, na medida em que dependem de uma ecologia bastante complexa (web 2.0, câmeras e players portáteis, comunidades de distribuição e fomento etc). Trata-se de um contexto que surge como resultado da possibilidade de produzir de forma mais artesanal, conforme as tecnologias disponíveis reduzem a distância entre amadores e profissionais, e um número cada vez maior de pessoas passa a realizar e distribuir filmes.
Diante deste crescimento, aumenta também a importância de um circuito de festivais capaz de propor a construção de olhares, processo que se dá em médio prazo, e depende da discussão contínua de parâmetros. Por sorte, vivemos uma época prolífica neste sentido. No Brasil existem vários trabalhos de qualidade sendo feitos há um certo tempo, que configuram uma história bem sólida de experiências com formas de difusão, talvez a matriz disto tenha sido o cineclubismo e seu importante papel nos tempos da ditadura militar. Para ficar apenas com alguns exemplos (assumindo o risco inevitável de esquecer algum importante), vale mencionar experiências como o Videobrasil, o Fórum BhZ, o Fórum de Mídias Expandidas realizado durante o Festival Eletronika, o FILE, ou experiências mais recentes como o HTTPVideo. Fica claro que o processo remonta aos tempos do cinema independente e do vídeo, e ganha contornos particulares com as mídias digitais. E que ele acontece no âmbito de um tempo um pouco mais dilatado, mesmo que não esteja desligado das pressões e expectativas imediatas típicas dos modelos de produção cultural vigentes nas diferentes épocas.
O sucesso de um projetos que pretendam se destacar neste contexto depende, portanto, de uma permeabilidade ao diálogo, da capacidade de incorporar o aprendizado deste trajeto já longo, e de um interesse em estabelecer pontes sólidas, baseadas no diálogo com as comunidades que compõem o universo amplo que um Festival como o Claro Curtas abrange, ao lidar com o crivo duplo de uma temática específica e uma expectativa em relação a possibilidades de linguagem que surgem conforme o cinema se diversifica como resultado da maior diversidade de tecnologias à disposição.
Vocês vêem a cultura do “broadcast yourself” [slogan do YouTube, que significa algo como “seja sua própria emissora”] como um sintoma dos nossos tempos? Em que sentido o festival se sintoniza e também se diferencia desta cultura?
Marcus Bastos – O “broadcast yourself” é o ícone de uma época em que a tecnologia faz do audiovisual um procedimento íntimo, desligado dos mecanismos industriais que marcaram o cinema do século 20. Hoje, gravar com um celular é tão pessoal quando foi um dia rabiscar versos num guardanapo. O “broadcast yourself” pode ser entendido como uma faceta da web 2.0, mas tem muitas particularidades que merecem atenção. Por isso, é difícil prever como um festival pode estar ou não em sintonia com esta cultura.
Talvez o próprio modelo de festival tenha que ser repensado e, por outro lado, é sempre mais difícil reinventar a roda que aprimorar seu projeto. Assim, vale lembrar que um festival é acima de tudo um espaço em que convivem diferentes visões, e que há sempre um processo em que é preciso decidir quais delas são mais pertinentes naquele momento. O curioso, em um projeto como o Festival Claro Curtas, é que ele ocupa um lugar intermediário entre a cultura da transmissão na web e as formas mais consolidadas de difusão.
Mario Ramiro – Um festival é acima de tudo um espaço de competição de uma melhor idéia, uma melhor realização, uma melhor resposta ao problema colocado pelo formato e pela poética. É praticamente certo que a grande maioria dos vídeos enviados para este festival foram realizados especificamente para ele. Com uma temática muito específica, o festival estimula os participantes a se confrontar com um tema e a olhar para ele com interesse, crítica e novas idéias. Portanto, o objetivo não é o de simplesmente publicar, mas o de se defender uma boa idéia.
Ao adotar a temática da “inclusão e diversidade” para nortear o conteúdo dos curtas-metragens, o projeto gera potencialmente uma produção documental, o que parece estar em sintonia com a proliferação de arte documental tanto no cinema (“Linha de Passe” é um exemplo recente) quanto nas artes visuais; como vocês vêem essa “vontade de investigação” do contexto social brasileiro no âmbito das pesquisas audiovisuais?
Mario Ramiro – Estamos vivendo um período em que predomina um “excesso de realidade” em tudo. A presença onipotente das informações e das ferramentas de acesso a elas está sobrecarregando a pauta das artes visuais nesse início de século com tal excesso. As cidades e a complexidade urbana tornaram-se as musas dos nossos artistas, cada vez mais intelectualizados e envolvidos em redes comunicacionais que, por sua vez, constituem lugares para as novas experiências estéticas e criativas. Por conta disso a “vontade de investigação” é estimulada e o artista torna-se cada vez mais “multimeios”, mais interessado nas relações entre as coisas.
Marcus Bastos – Concordo com o Ramiro, mas acrescentaria também que as tendências, na arte e na cultura, muitas vezes dependem antes de como certas correntes se institucionalizam que da predominância deste ou daquele formato em certa época. Os melhores trabalhos sempre parecem diminuídos quando encaixados em gavetas: mais formalista, mais focado no conteúdo, mais ligado à vontade de investigação do contexto social.
Como assessor artístico do festival, o que você espera encontrar no conjunto de filmes inscritos e qual será o enfoque de vocês no processo de seleção dos 100 melhores curtas?
Mario Ramiro – A assessoria artística tem um papel de garantir um olhar que equilibre o foco temático e o uso criativo da linguagem audiovisual nas pequenas telas em que esses filmes serão vistos. É muito provável que, entre as centenas e centenas de curtas que teremos para analisar, poderemos encontrar surpresas não tão óbvias, não tão esperadas. Muitas vezes um filme de aspecto “amador”, e realizado com os recursos mínimos, pode ter uma força narrativa ou poética que não depende da mais alta tecnologia para ser revelada. Naturalmente que dar visibilidade às questões de diversidade e inclusão é um dos focos do Festival Claro Curtas, mas o que nós esperamos é ver o engajamento em torno destes temas, sincronizado com uma visão crítica e criativa dos meios audiovisuais que temos em mãos nos dias de hoje.
Além da temática do festival ser voltada às diferenças (no mais amplo sentido da palavra), todo o evento é pautado pelo cuidado de garantir a acessibilidade (ao site, aos filmes, às atividades presenciais etc.), do ponto de vista de artistas e teóricos do audiovisual e das novas mídias, vocês acreditam que a iniciativa serve de "alerta" aos criadores? Em outras palavras, nesse campo de atuação (visto do lado da prática e também da teoria, já que vocês atuam nas duas pontas), existe essa preocupação com a acessibilidade?
Marcus Bastos – Um dos objetivos desse festival é chamar a atenção para o fato de que, em qualquer sociedade, há sempre pessoas marcadas por algum tipo de diferença, e é sempre preciso encontrar formas de relativizá-las, de dar voz à diversidade e ao heterogêneo, ao invés de gerar formas de exclusão. Qualquer processo de comunicação (seja ele entendido como arte ou qualquer outra coisa) não pode simplesmente se acomodar ao senso comum. As tecnologias de rede estão tornando moeda corrente este entendimento da diferença, apesar de o mundo atual ser bastante marcado por movimentos conversadores que estabelecem grandes focos de tensão entre o discurso e os fatos. Neste intervalo, surgem os materiais que interessam a quem estiver empenhado em trabalhar com linguagem no futuro.
Quanto à pergunta, se a iniciativa desse festival pode servir como alerta aos criadores, eu diria que este alerta já foi dado no passado por artistas como Scriabin, Mallarmé ou Valie Export. Todos estavam mostrando que os limites entre as linguagens são tênues, que é possível fazer música com imagens, livro com estruturas visuais ou filmes com o tato. Acreditar que a ausência de um sentido é uma “deficiência” é ignorar que a linguagem se constrói, em grande medida, a partir de combinações sinestésicas que são apreendidas pelo corpo de maneira menos especializada do que o Ocidente nos fez acreditar ao perpetuar certos formatos culturais.
Mario Ramiro – De fato, em uma sociedade globalizada, que reúne milhões de pessoas com necessidades especiais, as obras audiovisuais deverão se adequar às muitas necessidades deste contingente imenso de pessoas, que também são espectadores, público, leitores e consumidores. Portanto, o discurso do artista não pode simplesmente se acomodar à idéia que pressupõe que todos somos iguais. As novas tecnologias estão tornando mais baratos os investimentos necessários para esta adequação (acessibilidade), e isso deve ser incorporado ao programa de trabalho de todos os artistas e realizadores na próxima década.
Sobre a questão do alerta aos criadores, eu citaria também como exemplo uma iniciativa de um artista alemão, que em 1930 teve a idéia de transmitir um filme, normalmente visível numa sala de cinema, por meio das ondas de rádio, que as pessoas sintonizam em casa. Walter Rutmann editou apenas a trilha sonora de um “documentário” sobre o fim de semana de uma família que sai de casa e se dirige para o campo, para um “Weekend”. A filmagem sem imagens foi editada apenas em seu registro sonoro (ele utilizou uma das primeiras câmeras cinematográficas, sonoras) e o resultado de sua montagem foi transmitido por uma rádio, com duração de cerca de 11 minutos. No início do século 20, Rutmann já havia feito um “áudio-filme”, cujas imagens seriam construídas pelos ouvintes, na comodidade de sua poltrona em casa. Era o que ele chamava de “cinema mental”.
A comissão julgadora do festival é bastante heterogênea, tendo desde um especialista em filmes de suspense até um videomaker pioneiro do experimentalismo audiovisual televisivo no Brasil, passando por um diretor cujos trabalhos mais conhecidos (“Tropa de Elite” e “Ônibus 174”) abordam o complexo contexto social do Rio de Janeiro; qual o perfil que se pode antecipar dos 20 filmes finalistas?
Mario Ramiro – Eu acredito que o repertório de cada membro do júri é o que o autoriza a escolher um filme, entre tantos, que possa emocioná-lo e ser suficientemente forte e expressivo, sem necessariamente corresponder à linha de trabalho de quem o avalia (antigamente isso se chamava “estilo”). Certamente que o repertório multimídia de um, o cinematográfico e o documentarista de outro irá influenciar muitos julgamentos, como um filtro à frente de um raio de luz. Mas esperamos que os filmes tenham sua própria personalidade e história para exibir, no curto espaço de tempo dos 90 segundos.
Em “tempos de câmeras na palma da mão”, é sabido que vocês apostam na diversificação poética do audiovisual tanto pela possibilidade de expressão advinda de camadas sociais até pouco tempo desligadas do processo de produção de filmes quanto pela influência do impacto das novas tecnologias de comunicação na criação de uma nova estrutura de relacionamento social propiciada pelas mesmas; vocês poderiam falar um pouco sobre essa aposta na pluralidade da expressão e também na possível transformação da estrutura sociocultural brasileira?
Marcus Bastos – Um aspecto interessante da cultura “câmeras na palma da mão” é permitir um embate reiterado com substratos da realidade, aquilo que Villém Flusser descreveu no artigo “Coincidência Incrível” como evidências dos sentidos. Outro aspecto já foi apontado aqui, trata-se da democratização das formas de produção e difusão. Ambos, combinados, podem resultar num contexto bastante favorável à pluralidade de expressão e ao desenvolvimento de estratégias mais distribuídas no âmbito do audiovisual, e da cultura em geral.
Há muitas iniciativas formais e informais acontecendo em lugares pouco óbvios, que indicam que as tecnologias podem ser subvertidas no cotidiano, resultando em práticas bastante férteis. Talvez restringir este fenômeno ao Brasil seja inadequado, pois se trata de algo que acontece justamente num contexto de explosão de fronteiras, de fluxos transnacionais, e tensões entre um capitalismo modificado e aquilo que Ricardo Rosas chamou, num artigo publicado no site rizoma.net, de “cultura da gambiarra”. Fenômenos como os da pirataria nas ruas de São Paulo e outros que acontecem de forma coletiva e anônima são exemplos importantes, na medida em que acenam com usos pouco controlados da tecnologia, e indicam uma certa economia de troca, de compartilhamento, que aponta horizontes diferentes em termos de relacionamento social. Muitos destes movimentos foram apresentados, de maneira poética, no espetáculo de vídeo ao vivo “A parte precária”, de Lucas Bambozzi, com participação de coletivos como COBAIA e Supergás, feitoamãos/FAQ e o DJ Giancarlo Lorenci, ou em vídeos feitos com material reciclado, como “Coletor de Imagens”, de Jurandir Muller e Kiko Goifman, e “A televisão não será revolucionada?!”, do Media Sana. Portanto é preciso ressaltar que a cultura do audiovisual já é permeável ao tema há algum tempo.