“Não é preciso ser profissional para produzir conteúdo relevante”, diz Sérgio Sá Leitão
Em entrevista exclusiva, o documentarista e diretor da Agência Nacional de Cinema (Ancine) Sérgio Sá Leitão, um dos integrantes da comissão julgadora do Festival Claro Curtas, fala sobre a popularização da produção audiovisual e dá exemplos de filmes interessantes sobre o tema 'Diversidade e Inclusão Social'.
Site Claro Curtas - Qual a importância de festivais como este da Claro dentro do panorama da cultura e, especificamente, do cinema brasileiro?
Sérgio Sá Leitão - É preciso valorizar a Internet e o celular como ferramentas de multiplicação do acesso a conteúdos audiovisuais e de potencialização da capacidade de produzir. Esta iniciativa da Claro ilumina as possibilidades abertas pelas novas mídias e aponta para uma relação estimulante entre uma grande empresa, seus milhões de clientes e milhares de produtores de obras audiovisuais espalhados pelo país, profissionais ou não.
Site Claro Curtas – De que forma e com que intensidade as empresas privadas se mobilizam na área do audiovisual?
Sérgio Sá Leitão - O movimento mais importante é a aproximação crescente entre as empresas de telecomunicação, que operam redes e serviços relacionados à Internet, à telefonia celular e à televisão por assinatura, e as empresas independentes de produção e distribuição de conteúdos audiovisuais. Esta aliança, que resulta da convergência digital, uma tendência que é ao mesmo tempo tecnológica, econômica e social, pode transformar o panorama audiovisual do país, ainda marcado pela concentração.
Site Claro Curtas - O que você acha da crescente popularização da captação (por meio de celulares, câmeras de fotografia e vídeo digitais), da edição (programas amadores) e da divulgação (YouTube) na área audiovisual?
Sérgio Sá Leitão - Trata-se de um fenômeno altamente positivo, na medida em que amplia o alcance e facilita e diversifica a produção. Novos meios de captação e distribuição significam mais gente vendo, mais gente fazendo e mais interação entre quem vê e quem faz. A diversidade em pauta no Claro Curtas, por exemplo, diz respeito não só ao conteúdo, mas também às abordagens, aos instrumentos de captação e aos meios de acesso e interação. Trata-se de um passo na direção de uma democracia audiovisual. Espero que tenha vida (e cauda) longa.
Site Claro Curtas – E como isso afeta a qualidade da nossa produção audiovisual? Isso tem levado mais pessoas a ser tornarem estudantes e profissionais de cinema?
Sérgio Sá Leitão - O futuro vai trazer a multiplicação do acesso, da produção (em termos de quantidade e diversidade) e da interação entre ver e fazer. Como em outras atividades, também aqui a quantidade pode gerar qualidade. Imagino que as pessoas que comecem a fazer seus próprios vídeos naturalmente se interessem por estudar as técnicas e a história do cinema. Mas não é preciso ser um profissional de cinema para produzir conteúdos audiovisuais atraentes, relevantes e, inclusive, rentáveis.
Site Claro Curtas - Com relação ao tema, diversidade e inclusão social, você acha que ele vem sendo retratado adequadamente no cinema nacional?
Sérgio Sá Leitão - As perspectivas que o tema oferece são infinitas. Espero que os filmes enviados escapem ao óbvio, tanto em forma quanto em conteúdo. De certa forma, inclusão (ou exclusão) e diversidade (ou castração da diversidade) são temas que aparecem com alguma frequência no cinema brasileiro, o que reflete sua importância social. A diversidade e a inclusão podem ser culturais ou políticas, podem estar relacionadas a um estado ou condição, podem dizer respeito a idéias ou práticas. Trata-se de um universo fascinante a ser explorado.
Site Claro Curtas - Quais longas ou documentários sobre esse tema você destacaria?
Sérgio Sá Leitão - A propósito do tema inclusão (ou exclusão) social, acho que o novo filme de Bruno Barreto, "Próxima Parada: 174", apresenta uma tentativa corajosa de identificar causas e apontar processos, para além dos clichês habituais.