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Difusão Audiovisual
Entrevista com o produtor e cineasta Caio Gullane, jurado desta edição do Claro Curtas: “Um filme acontece de fato quando encontra o seu público”
19/03/2010
André Martinez: Caio, o tema do Festival Claro Curtas este ano é SER DIGITAL: Aprendizado e Transformação na Sociedade do Conhecimento. O que o tema significa pra você?
Caio Gullane: Eu acho que esse conceito de SER DIGITAL vai se ampliando cada vez mais. Temos uma mudança de geração em geração. Essa ligação da tecnologia ao universo do digital, do não linear, é algo que já estamos percebendo há décadas. Isso realmente tem provocado avanços em diversas áreas da sociedade mundial, do mundo globalizado. A minha geração, de certa forma, foi uma das que cresceu com a televisão, tendo uma forte presença dentro de casa. Não tinha internet, não tinha celular, mas tinha muito forte a televisão. Eu lembro muito dos educadores e dos nossos pais preocupados em não substituir outros meios de conhecimento pela televisão. Atualmente, temos várias evoluções a partir da TV: a telefonia, as telecomunicações, a própria internet com suas redes sociais, as intranets. Mesmo frente a tantas possibilidades, eu que fui educado para não me fechar às outras fontes de conteúdo, sinto um certo equilíbrio. Particularmente, não sou viciado em “Ser Digital”.
AM: Como fica esse cuidado neste nosso contexto atual, em que, graças à internet, temos acesso a múltiplas possibilidades de conhecimento não necessariamente institucionalizadas, e, ao mesmo tempo, temos diversas possibilidades audiovisuais que não seguem um padrão preestabelecido?
CG: Mais do que qualquer tipo de institucionalização que analise a internet como a maior fonte de conteúdo da atualidade, o importante é que a pessoa que está em busca de informação, saiba como fazê-lo. Porque não vai adiantar nada se você optar por assistir filmes apenas buscando o entretenimento, ver programas na televisão que não levem a nenhuma reflexão ou acessar a internet apenas em busca de conteúdo fútil. Se quem opta por qualquer um desses meios não estiver em busca de informação mais aprofundada, vai absorver apenas conteúdos superficiais, seja qual for a fonte de informação escolhida. Quanto mais conhecimento disponível e maior a diversidade de meios, maior o discernimento você tem que ter para se apropriar desses conhecimentos e mais difícil vai ser selecionar este conteúdo.
AM: Você é um realizador audiovisual e está participando do Claro Curtas com essa responsabilidade de selecionar trabalhos enviados por um público bastante diversificado. Esse participante é alguém que, em algum momento, percebeu que tinha uma câmera no bolso e resolveu se apropriar dessa tecnologia a seu favor para questionar o mundo. Em sua opinião, em que ponto acontece a passagem de receptor a produtor audiovisual?
CG: Eu acho que acontece de fato quando o filme passa a fazer sentido não só para você realizador, e sim para algum público. Eu acho que essa é a virada. Hoje em dia, com a ampliação do acesso aos meios digitais, realmente está muito fácil produzir esse tipo de registro. Grande parte das pessoas do mundo pode gerar audiovisual, seja ele de um minuto, de uma hora, de duas horas, porque hoje temos equipamentos muito mais acessíveis. Fazer, obviamente, todo mundo pode fazer o que quiser. Uma peça audiovisual vira obra quando ela acha o seu público, quando ela tem a capacidade de não envelhecer, tem a capacidade de atravessar o tempo. Caso contrário, nós estaríamos falando de algum modismo ou de algum conteúdo supérfluo que você apresentou para algum público, mas logo depois ele se esvazia, porque não tem profundidade.
AM: O Claro Curtas contou com um ciclo de oficinas de audiovisual em três Estados brasileiros: Bahia, Minas Gerais e Pará. Como um projeto como esse pode contribuir para a realização audiovisual, uma ferramenta de aprendizado que ao mesmo tempo fomenta um sistema econômico e industrial e permite que os alunos se expressem com responsabilidade?
CG: Aqui acho fundamental falarmos sobre o papel da formação. Acho importante que os jovens sejam muito bem formados. Quando falamos em audiovisual, existem inúmeros caminhos para que você se insira no mercado de trabalho. Desde entrar em uma multinacional e fazer a parte de comunicação interna através de vídeos, até se transformar num diretor de cinema de fato. Há muitas funções a serem desempenhadas, muitas possibilidades de profissionalização neste setor. Imagine então como é importante levar esse tipo de conteúdo aos jovens.
AM: Com a inclusão e absorção das novas tecnologias pelo segmento audiovisual, o que você acha que vai acontecer com os profissionais deste setor nos próximos anos?
CG: Hoje em dia, existem vários filmes feitos por uma pessoa só, que dirige e faz todo o resto. E o filme fica pronto. Assim como existem filmes também só do produtor, em que ele toca o processo de forma que oculta todas as outras participações. Enfim, existem todos os tipos. O que eu acho é que o ciclo do entretenimento, do audiovisual, se encerra quando ele é mostrado ao público. Não adianta você fazer qualquer tipo de audiovisual e guardar na sua prateleira, isso não valida. O ciclo se fecha quando você exibe. Para mostrar ao público é preciso usar um canal de comunicação. Esse canal pode ser o cinema, a televisão, o digital, a internet. Por exemplo, você coloca um vídeo no Youtube que pode ter um número de views muito maior do que no cinema ou na televisão. Eu acho que o papel do ser audiovisual nunca vai deixar de existir. É esse misto: é o papel do produtor que empreende a obra e de quem cria a obra.
AM: Quais são suas expectativas em relação aos vídeos enviados ao Festival?
CG: Eu estou muito feliz por fazer parte do júri do Claro Curtas. Primeiro, porque eu vou poder ver, já com a triagem feita pela comissão de pré-seleção, vídeos enviados do Brasil inteiro. Vou poder ver como os “seres digitais” de todo o País estão se comportando hoje. O Claro Curtas é amplamente democrático em relação aos participantes. No ano passado, eu fui para o Festival de Brasília e um dos motoristas das vans me disse: “Poxa, você é jurado do Claro Curtas! Vota em mim! Eu vou mandar um vídeo lá que eu fiz, que é ótimo!”. Ele, que trabalha como motorista do festival de cinema, que vê todos os anos aquelas pessoas ligadas ao mundo do cinema, entendeu que vai ter voz no Claro Curtas. Uma menina da Bahia também me mandou um e-mail dizendo “Que legal, vou me inscrever. Eu fiz um vídeo”. São vários tipos de pessoas, de várias classes sociais, falando que querem mandar, como desafio, o seu vídeo. Levando em conta o objetivo do festival, que é estimular a produção audiovisual em curtos formatos e estimular a democratização dessas linguagens e tecnologias, tendo em mente a premissa da inclusão, acho que o festival está realmente cumprindo seu propósito. Eu acho muito importante essa iniciativa da Claro, porque são essas as iniciativas que acabam, de certa forma, norteando e dando novos parâmetros para o audiovisual.
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