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Lugar para a poesia
Em entrevista ao site Claro Curtas o ator e diretor Matheus Nachtergaele, jurado do Festival, fala sobre evolução tecnológica e sobre técnicas artísticas tradicionais: “Tenho amor pela manufatura”.
22/04/2010
Por André Martinez
André Martinez: Matheus, para começar gostaria que você fizesse uma reflexão sobre o tema “ser digital” pela seguinte perspectiva: como habitar esse território virtual aberto pela internet e pelas novas tecnologias?
Matheus Nachtergaele: A princípio, eu responderia com a mesma pergunta que você me faz. Minha sensação é que vou muito mais aprender a refletir sobre o tema que você coloca do que qualquer outra coisa. Apesar de ser um homem de hoje, um homem que estudou em escolas ocidentais, que está no mercado de trabalho, tenho uma relação telúrica com as coisas, ainda muito relacionada com a terra mesmo. Tanto em A Festa da Menina Morta [2008, primeiro filme dirigido por Matheus] quanto no novo filme que quero fazer, quero refletir sobre como o “brasileiro original” está e qual a relação que ele tem com esse mundo novo que se propõe. O Festival Claro Curtas me deu uma oportunidade para aprender mais sobre isso, inclusive aprender a aceitar melhor as novas técnicas. Porque, por incrível que pareça, eu sou bem avesso aos avanços tecnológicos. Eu sou lento. A Festa da Menina Morta foi feito em película, apesar de ter tido uma mediação digital. E eu confesso que tive certa resistência para fazer essa mediação. Tanto eu quanto o Lula Carvalho [diretor de fotografia de A Festa da Menina Morta] temos um amor pela manufatura. Para mim, fazer cinema é muito mais uma pergunta do que uma resposta. A Festa da Menina Morta não é um filme de tese. Tudo na tela são perguntas, não é um filme que se fecha com uma resposta. Eu acho que vamos ter, vendo os filmes inscritos no Claro Curtas, uma ideia de como as pessoas estão lidando com toda essa tecnologia. E de como os jovens, principalmente e provavelmente, estão lidando com isso tudo. E se tem lugar para poesia, não é? Isso vai ser o que eu vou gostar de ver...
AM: Como um profissional que tem uma experiência de realização dentro de uma perspectiva mais tradicional, com esse amor à película, como você lida com todas essas desconstruções que as novas tecnologias impõem e vão impor cada vez mais nos próximos anos?
MN: Eu lido com isso com certo susto. Às vezes eu fico encantado. Há pouco tempo, eu estive em uma exposição de arte e tecnologia, e alguns trabalhos me deixaram impressionado. Mas é todo um universo assustador para mim. Eu sou um homem do teatro mesmo, eu sou ator, da arena, eu construo recursos diante de um público. O virtual me assusta. Me encanta também, mas me assusta. O que eu quero ver nesses trabalhos que vão chegar às minhas mãos é em que medida o poeta consegue ser subjetivo, consegue colocar algo de muito pessoal, apesar de tanta tecnologia. Porque me parece, tenho pensado sobre isso, que arte é uma queixa pessoal, individual, que quando tem ressonância se torna uma queixa coletiva. Me parece que o subjetivo particular é característica principal da boa obra de arte, sabe?
AM: Eu queria que você puxasse um pouquinho da sua experiência de ator, agora, para dar uma dica para quem se propõe a fazer uma realização audiovisual e isso contempla essa coisa chamada atuação.
MN: Eu acho que a atuação vem de conhecimentos muito antigos, não é? Vem do ritual religioso mesmo, passa por uma série de simbolizações até se tornar laica; e um bom ator é um cara que minimamente entende essa história, além de ser um cara que tem algum treino. Acho que ator bom é ator que se informa, que lê, que ouve música, que assiste filmes bons, que gosta de ir ao teatro... Ator bom é isso. Não consigo conceber de outra maneira. Agora, eu tenho visto essas novas técnicas de animação com o maior encanto. Está aí uma coisa que eu adoro. Eu tenho ficado impressionado com esse 3-D, com o que é possível se fazer com o cinema de animação hoje em dia.
AM: Nesse momento em que as novas tecnologias avançam e o universo virtual se expande e se estende para todas as artes, a questão da atuação é pouco explorado. Em sua opinião, o que será o ator web? Como o ator poderá se adaptar a essa mudança na forma de consumir arte e cultura imposta pelos meios virtuais?
MN: Sinceramente ainda não sei. Acho que era no Blade Runner [Ridley Scott, 1982], um filme até antigo que tinha uma cidade de holografia. Eu via aquilo e pensava: “Será que um dia vai ter uma peça assim”? Aí você vai poder assistir em casa, em 3-D, quase com a presença concreta do ator. Acho que já é meio assim, não é? O cinema já está a um passo disso. A emoção está ali, a cena está ali, mas o ator não está, mas esteve em algum momento. Me parece que vai caminhar por aí. As formas da interpretação de um ator vão nos levar para esse novo mundo que está se abrindo. Mas eu ainda não tenho um pensamento totalmente formado sobre isso, não. Estou mais como espectador disso.
AM: Quando você assiste a um filme como Avatar [James Cameron, 2009], como você vê a questão da atuação?
MN: Não vejo como se estivesse vendo atores. Foco na animação, na marionete mesmo. Há algum tempo, tive a oportunidade de assistir a um pequeno festival de Teatro de Bonecos, em São Paulo. Aquilo é muito impressionante. Os bonecos eram manipulados por três pessoas, mas não eram atores, entende? Claro que tem a mão do homem, mas não é um ator. As animações eu também vejo assim. E eu adoro. Tenho ido bastante ao cinema para ver desenho animado, e tenho assistido com o maior prazer. São marionetes incríveis.
AM: Para finalizar, que dica você deixa para esse jovem com um celular na mão e que está com vontade de realizar uma obra audiovisual? Por onde ele deveria começar?
MN: É complexo, hein? Acho que é importante pensar no que realmente você quer dizer. Trabalhar com aquilo que te perturba ou que te encanta demais. Ser íntimo do seu discurso. É isso: seja íntimo do seu discurso, durma com ele no travesseiro. O seu discurso é a sua queixa, não é? O que arde de verdade é uma queixa. Por isso às vezes essa frase é tão bela: “quanto mais para dentro, mais para todos”. Acho que é isso que eu gostaria de dizer...
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