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Artigos & Entrevistas


Cutucão Audiovisual

Conversamos com Marco Del Fiol, um dos monitores colaboradores das oficinas realizadas pelo Festival Claro Curtas. Aqui, ele fala dos processos de ensino e aprendizado audiovisual e a experiência no intercambio com os participantes das oficinas.

22/01/2010

 

Festival Claro Curtas: Marco, conta um pouco sobre a sua visão a respeito das possibilidades educativas geradas pelas novas tecnologias aplicadas ao fazer audiovisual.  O que significa a apropriação do fazer audiovisual na era digital? 

Marco Del Fiol: Bom, quando falamos do audiovisual, da imagem na era digital, eu sempre acho importante dar uns passos para trás. Tudo chega até nós sem filtro e nos apropriamos muito rápido. Hoje, qualquer cidade, por menor ou mais pobre que seja, tem uma lan house. E tem gente na lan house o dia inteiro. Mas, o que essa gente toda está fazendo ali? Na maior parte das vezes, acessando redes sociais como Orkut, Facebook e outras. Então isso mostra que temos essa vocação de comunicação, mas atropelamos muita coisa no processo. O audiovisual é uma linguagem, tem sintaxes próprias. A verdade é que não somos um país de leitores, nem um país letrado. Se voltarmos três gerações, quase sempre, na família de todo mundo,  há alguém que era analfabeto. Começando por isso, por não sermos leitores, temos uma tradição oral muito forte, não uma tradição de escrita e de leitura. 

O que acontece é que, quando vamos para o audiovisual, isso faz uma diferença enorme. A verdade é que replicamos modelos na hora de produzir vídeos, não há uma reflexão sobre a imagem. Assim como hoje a escola tenta ensinar a Língua Portuguesa, Língua Inglesa, acreditamos que um dia vamos ter instrumentos pedagógicos de ensino da linguagem audiovisual. O Brasil é um dos países em que mais se assiste televisão no mundo, principalmente na faixa que vai até os 16 anos de idade. Assistimos muita TV, mas refletimos muito pouco. No Youtube, temos uma possibilidade de conhecer um pouco do que se produz em larga escala no Brasil e no mundo. E, na maioria das vezes, são réplicas, são apropriações dos formatos tradicionais de TV. Há pouca inovação em termos de linguagem.  São limitações que apontam para a necessidade de desenvolvermos programas de alfabetização audiovisual.

FCC: Por onde se embasa esse processo de alfabetização audiovisual numa realidade em que estamos repensando o que é linguagem audiovisual e o que não é? 

MDF: Neste caso, é importante falarmos das oficinas que fazem parte do projeto Claro Curtas. Pensamos que o processo que empreendemos é mais do que uma oficina, é antes um laboratório. O laboratório é um espaço de experimentação, é um espaço para errar, para descobrir por que isso funciona, por que não funciona. Não costumamos ditar regras. Cada vídeo é um organismo vivo. Na verdade, o que um vídeo faz? Ele se apropria da literatura, para constituição do roteiro; do teatro, para encenação; da arquitetura, para a cenografia; do enquadramento,  presente na pintura e na fotografia. E vem do cinema, do vídeo, é o movimento e a edição, não é? Ou seja, colocar uma imagem atrás da outra. Então, quando iniciamos uma oficina de vídeo, a primeira coisa que apresentamos é a fotografia. Retomamos o espaço da imagem parada e falamos sobre enquadramento. Por incrível que pareça, muita gente nunca viu um livro de fotografia. Então, levamos alguns livros e apresentamos a produção de vários fotógrafos consagrados. Isso deixa claro para quem participa das oficinas que é possível construir uma linguagem, um discurso por meio da imagem. Isso que parece extremamente banal, para muita gente é surpreendente e novo. 

FCC: Como é que tem sido a reação das pessoas a partir dessas propostas e descobertas trazidas pelas Oficinas Claro Curtas?

MDF: Temos três movimentos básicos na oficina: um é a prática, outro é a ampliação de repertório e outro é a reflexão sobre a prática. O primeiro exercício proposto aos participantes do encontro é chamado de ”Atividade Diagnóstico”. Damos uma câmera para cada um deles sem falar nada. A única coisa que dizemos é: “Vamos começar a oficina. Cada um vai fazer uma foto de quem está ao seu lado. Cada um tem que fotografar e ser fotografado”. Invariavelmente, ninguém se levanta. É por isso que essa atividade também é chamada de “Fotógrafo Sentado”. E, a partir daí, começamos uma discussão: por que você não se levanta? Por que não busca novos enquadramentos? 

Em seguida, apresentamos o trabalho de grandes fotógrafos como Lévy Strauss, Pierre Verger. Passamos então para o Robert Frank, que também é um viajante, mas é antes de tudo um poeta das imagens. E assim, o processo deslancha. Os alunos percebem que é possível construir uma narrativa poética e estética. Percebem que as imagens podem ser muito mais que apenas um registro de um lugar, de um espaço, de um tempo. Elas podem estar impregnadas de subjetividade, de poesia. Então, nesse momento, quando eles acabam de ver essa apresentação de fotos, propomos um tema para que eles experimentem, fotografem. O tema é em geral mais abstrato como Espera ou Tempo. Este último foi o tema do encontro que aconteceu na cidade de Cachoeira, na Bahia. Optamos por esse tipo de temática para fugir do turístico, daquilo que é fácil.

FCC: É neste ponto que eu queria chegar. Como é a sua percepção sobre o que muda na cabeça desse indivíduo quando ele tem contato com essa nova possibilidade de aprendizado? Que sujeito emerge desse laboratório?

MDF: Não queremos formar ninguém, porque em dois dias não dá pra formar um profissional desta área. Eu costumo dizer que damos um empurrão, uma espécie de “Cutucão Audiovisual”. É isso o que fazemos. São dois dias muito intensos. E essa intensidade é proposital. A ideia não é profissionalizar, nem formar. Não acho que tenhamos uma forma, é a experimentação mesmo que vale. Então, no fim, as possibilidades ficam muito claras, porque a produção visual e audiovisual das oficinas apresenta obras tão díspares, singulares e contrastantes. Surge mesmo o olhar único. Isso é resultado de uma provocação e as pessoas saem do lugar em que estavam e se colocam em outro lugar, o lugar da experimentação. Essa também é uma reflexão sobre a fotografia hoje em dia.  Produz-se muita imagem, mas as pessoas não se afeiçoam, não estabelecem conexão com nenhuma delas. Isso tem muito a ver com o mundo em que vivemos, com essa lógica do consumo e descarte. É por isso que começamos com esse questionamento: para que fazer mil fotos se você não se conecta com nenhuma delas? É uma produção também muito auto-referente. As pessoas se fotografam, se filmam e publicam nas redes.  Daí surge a proposta: “ Vamos pegar a câmera e, ao invés de vira-la para nossos umbigos, vamos vira-la para o mundo, olhar o que está acontecendo. O que há a nossa volta?”. Todas essas provocações rendem frutos. Só na Bahia, as quatro oficinas produziram mais de 200 fotografias e cerca de 60 curtas. Vemos muitos trabalhos de pessoas que nunca tinham fotografado na vida e que apresentam fotos maravilhosas no decorrer da oficina, muito boas mesmo. 

FCC: Há uma comunidade de educadores que estão interessados em buscar outras possibilidades, em revisar o papel da educação em relação ao acesso às novas tecnologias. O que você diria a esses educadores? 

MDF: Eu vou responder isso dando um exemplo. Demos uma oficina em Cachoeira em parceria com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Foi engraçado porque, no final, os meninos estavam gratos pela oportunidade de participar da oficina. Eles estavam animados com o material (fotos e curtas) que produziram, estavam orgulhosos mesmo. Foi uma loucura. Lembro que três meninos, alunos do curso de Jornalismo, optaram por fazer um vídeo sobre uma festa da cidade que acontecia no mesmo final de semana da oficina. Foram para a rua com três câmeras como se fosse uma equipe de TV. Quando eles começaram a editar o vídeo, eu disse: “o que acham de desconstruir isso? Que tal mexerem um pouco com o tempo, criar outras e novas leituras a partir do material captado? Não vamos fazer o que já foi feito tanta vezes, certo?”. Daí, um deles me falou: “Não, mas em jornalismo não se pode fazer isso”. Foi aí que eu pontuei: “Mas isso não é jornalismo. Aqui é um laboratório, é para experimentar!”. No final, eles estavam tão felizes com a experimentação que disseram: “No Youtube tem uns cem vídeos dessa festa, mas nenhum vai ser igual ao nosso!”.  E a coisa caminha por aí... Por esse caminho de experimentação e esse prazer de criar algo novo.

FCC: Eu queria que você falasse um pouco sobre esse diferencial do Claro Curtas, um festival que se propõe a premiar, mas que também colabora com os processos educativos e inclusivos, também. Como você vê isso? 

MDF: Isso é, sem duvida, um diferencial.  Isso coloca o Festival Claro Curtas num outro lugar, não é? Hoje existem no Brasil inúmeros festivais de cinema, de vídeo... Essa é uma preocupação que está começando a aparecer em alguns lugares.  Mas, eu acho que o que tem de diferente no Claro Curtas é que procura-se aqui uma plataforma, uma metodologia, uma maior abrangência. Assim temos as oficinas, que representam um esforço pequeno em relação ao número de participantes do festival, mas provocam um  grande impacto nos processos de aprendizado audiovisual dos participantes, mas o Claro Curtas vai mais longe e disponibiliza gratuitamente para download vídeos educativos acessíveis  e um miniguia com orientações para quem está produzindo  vídeos a partir das novas tecnologias. São dicas valiosas de como fazer, como produzir, como publicar vídeos na Internet. A ação envolve também a distribuição de exemplares impressos do Miniguia Claro Curtas para os pontos de cultura, ONGs e outras organizações culturais em muitas cidades do país. E isso faz uma diferença enorme.  Enfim, eu considero essa iniciativa do Claro Curtas como  um passo importante e um avanço que abre discussão para o papel social dos festivais no Brasil. É um começo. E é um começo super acertado. Tudo nessa área é muito novo. Quando a gente pensa nisso, na educação audiovisual em maior escala, na escala em que todos podem fazer e fazem vídeos, é tudo mesmo muito recente.  

FCC: Marco, para encerrar nossa entrevista, queria te perguntar o seguinte: o Claro Curtas está encerrando as inscrições dessa edição no próximo dia 20 de fevereiro. O que você diria para as pessoas que estão se preparando para inscrever seus curtas no festival?

MDF: Nossa, um monte de coisas... (RISOS). Vamos lá... Bom, se você não gravou o curta ainda, pense bem no que vai gravar, como vai gravar, onde vai colocar a câmera. Sugiro que se perguntem: - Por que eu vou colocar a câmera ali? Que plano vem depois daquele? Tem trilha ou não tem? Que trilha? Que horas a trilha entra, que horas que ela sai? E depois, na hora de editar, experimente livremente, arrisque-se. Terminou de editar? Assista de novo, mude o que precisa mudar, salve como outra versão. Aí edite de novo. Aí, dorme, acorda, assiste e repensa. Mostre o curta para uma pessoa ou duas, mas não para todo mundo. Mostra só para as pessoas em quem você confia. Aí então, inscreva seu curta e boa sorte.

 

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