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Artigos & Entrevistas
Entrevista com Carlos Nader, documentarista, vídeomaker e jurado do Festival Claro Curtas
Veja abaixo a entrevista por skype realizada por André Martinez, pesquisador, escritor e vídeomaker com o documentarista e videomaker Carlos Nader, jurado do Festival Claro Curtas.
André Martinez: O Claro Curtas 2009 tem como proposta ser mais do que um festival de curta-metragens via Internet, mas antes um espaço de debates e discussões teóricas e simbólicas sobre as práticas audiovisuais no contexto em que vivemos hoje: a apropriação das novas tecnologias. Para tanto, o Claro Curtas propõe a temática “SER DIGITAL – Aprendizado e transformação na sociedade do conhecimento”. Vamos então à primeira pergunta: Para você, o que é “ser digital”?
Carlos Nader: É engraçado, porque a primeira coisa que me ocorre, assim, automaticamente é que a idéia de “digital” vem de “dígito”, “dedo”. Primeiro, então, há essa idéia de manipulação contida na origem da palavra “digital”. Nesse terreno da semântica não existe muito coincidência. É através desta manipulação que se constrói um universo, uma instância da realidade: a instância digital que hoje está cada vez mais misturada com as outras instâncias – que a gente chama de física, atual, real ou qualquer outro nome. Outro dia eu aprendi que “prestígio” em latim quer dizer “ilusão”. É por isto que “prestidigitação” significa criar ilusão com os dedos. Ou seja, a criação do universo digital tem muito de prestidigitação.
Eu lembro da primeira vez que eu entrei na internet. Eu era roteirista de um programa na [rede] Globo em 1990, o Programa Legal – com o Luís Fernando Guimarães e a Regina Casé. O Hermano Viana criou a idéia desse programa junto com a Regina e em um determinado momento, o Hermano viajou para Chicago para fazer doutorado e a gente precisava se comunicar. O Hermano é um dos meus melhores amigos e na época a gente trocava cartas ainda! Então, ele estava na Universidade de Chicago e me disse: “tem uma coisa aqui que se chama Internet”. Eu nunca tinha ouvido falar. Daí, ele me convidou: “você não quer tentar entrar? Porque aí a gente pode se comunicar por aqui, tem que ter um negócio chamado modem, você tem que comprar um e colocar no seu computador”, ele disse. Até me lembro dele falando: “modulator-demodulator”.
Então, eu fui lá na Rua Santa Ifigênia, em São Paulo, comprei o modem e instalei. Eu lembro que quando entrei na internet, logo percebi que aquilo ia mudar o mundo. Na primeira letrinha que apareceu - o computador ainda não tinha imagem, só dígitos, era só aquele monitor de fósforo verde e letrinhas. Não existia ainda a web com todas as imagens, ícones e interfaces que temos hoje. Eu me lembro de entrar na Biblioteca do Congresso Americano e logo depois na PUC do Chile. As letrinhas iam entrando devagar no meu computador, formando uma palavra. A cadeira tremeu, eu senti, naquela hora, que tinha alguma coisa de diferente surgindo. O engraçado é que, na época, tinha uma lista das pessoas que estavam internet no Brasil. Eram só 600 pessoas! Eu tive de escrever o meu nome na lista de quem estava na internet e meu número era 600 e tal. Não conhecia quase ninguém da tal lista. Era gente de tecnologia, engenheiros etc. Pois é, a partir dessa idéia de dígito, a partir daquelas letrinhas que apareciam no computador, se construiu um novo mundo.
AM: Pelo que você diz é possível interpretar o “digital” por várias perspectivas. Uma delas é essa mais primária, mais simples. Outra possibilidade, a partir também do que você falou é a peculiaridade dessa impressão. Essa manipulação, prestidigitação está numa outra via, não é? Todos nós podemos manipular, de certa forma, aquilo que queremos expressar. Você manipula a tecnologia, o conteúdo. Você pode criar uma nova linguagem, a dialógica. A minha pergunta a partir daí é: o que muda nas nossas relações a partir destas novas possibilidades - acesso à Internet, acesso à modulação e à demodulação da informação, da mensagem?
CN: O que muda está essencialmente ligado à idéia de modulação e “demodulação”. Esta digitalização do mundo deixa mais evidente uma característica essencial do próprio mundo, desde que o mundo é mundo: a vida é binária. Você falou muito bem sobre a idéia de relação dialógica. Isto implica numa relação paradoxal, de corrente alternada, de zero e de um, de sim e de não, de uma coisa que não é linear. Para o bem ou para o mal. Isso sempre existiu. Por exemplo, uma amiga minha estava se separando e ela disse assim: “puxa, eu reparei que eu estou me separando dele pelas mesmas razões pelas quais eu me casei. Quando eu conheci meu marido, achei ele uma pessoa independente, que pensava pela própria cabeça, fazia o que achava melhor e isso me atraiu. Hoje eu acho que ele é uma pessoa totalmente egoísta, só pensa nele, só faz o que quer. Ou seja, as mesmas coisas que me atraíram nele, só mudaram de nome e hoje me repelem”. Quando a gente está falando de coisas muito essenciais do mundo, da humanidade, seja do ponto de vista pessoal quanto do coletivo, a gente atinge esse tipo de paradoxo. Os grandes defeitos são as grandes qualidades. Isto está se intensificando com o digital. Tudo muito veloz. Esse mundo de modulação e de “demodulação”, esse mundo de zero e um, é um mundo ambíguo se pensamos no que pode ser bom e no que pode ser ruim. O que nos resta é saber usar o que ele tem de bom. Quer ver? A gente está falando aqui via Skype, remotos. Da mesma forma que a Internet está nos aproximando, ela também está nos separando. Por alguma razão a gente não se encontrou pessoalmente e essa razão também tem a ver com a tecnologia. A gente vive lotado de trabalho, por causa da tecnologia. E agora a gente está aqui se encontrando e se separando através de uma tela. A própria ideia de tela, origem da palavra “tela” é bélica, surgida na Idade Média. “Tela” antes de tudo era aquilo que separava, era o muro, uma espécie de arame ou de madeira, depois de conquistar um território, os militares colocavam telas para delimitá-lo, a idéia é muito mais de separação do que de união. “Screen”, em inglês; ou “écran”, em francês, ou “ecrã” em português de Portugal, tem a mesma origem semântica de “escudo”. É um paradoxo típico: aquilo que nos une, nos separa, e por aí vai.
AM: Você indica que a principal transformação é então cognitiva; nós temos uma programação que vem de centenas, de milhares de anos, nos condicionando a um pensamento notadamente científico e mecânico, linear. Você poderia falar um pouco sobre essa nova perspectiva, digital e dialógica, como artista mesmo, como alguém que se expressa usando o meio audiovisual?
CN: A primeira coisa que me surge é a idéia de quebrar o que há de muro na tecnologia. Mas acho que ainda mais interessante que isto seja a idéia de se colocar exatamente em cima do muro. Comecei a trabalhar numa época de transição entre ditadura e democracia no Brasil, e a primeira coisa que se criticava era essa postura de estar em cima do muro. Dizia-se, “não podemos ficar em cima do muro!”, todo aquele clichê de que a gente tem que tomar um partido, uma posição. Na época isso era muito presente e estava na comissão de frente de qualquer discussão. E eu lembro que na época eu dizia que se tem um lugar que eu gostaria de estar é em cima do muro, exatamente, em cima da tela, nesse caso, em cima de qualquer divisória. Porque é uma posição privilegiada, um mirante, um lugar de onde você pode olhar melhor. Os dois lados do muro, os dois lados da tela. Olhar é a coisa que eu mais gosto na vida. Por isso que eu me coloquei no mundo como um artista audiovisual. Mas, me incomoda um pouco essa história de arte como uma coisa estanque, separada da vida. Eu nem gosto muito de me pensar como um “artista”. Ainda no terreno da semântica, lembro que a palavra “poesia” vem da palavra grega “poesis” que quer dizer simplesmente “trabalho”. Procuro me pensar só como uma pessoa que se relaciona com o mundo através de mil coisas, uma delas, importante mas não única, sendo minha arte, meu trabalho. Esta postura “em cima do muro” vale para qualquer pessoa. Artista ou não, a gente tem ter jogo, ter ritmo, sempre, dançar numa relação dialógica com a música do tempo, com o espírito da época, com o Zeitgeist, esse que estamos vivendo agora.
AM: É um processo permanente de aprendizagem. E o que você nos traz é que o seu trabalho faz sentido na medida em que você respeita a autonomia do espectador, esse que vai se apropriar do seu trabalho artístico. É aberto, não fechado, se isso é arte ou não, o tempo é que diz. É mais interessante quando o artista quer simplesmente tentar estabelecer um canal de comunicação, de expressão. No universo da arte e das novas tecnologias, você poderia falar um pouco dessa dialógica de concentrar na dispersão, concentrar na fragmentação. Como é possível isso?
CN: É aquela coisa que os americanos cafonamente chamam de “a pergunta de um milhão de dólares” [Risos]. É difícil. Mas vou tentar responder. No oceano da informação digital, concentrar é preciso, concentrar- se também é preciso. E eu estou usando o verbo "precisar" com o mesmo duplo sentido que Fernando Pessoa usou, "Precisar" significando tanto "necessidade" quanto "precisão". Porque como criadores audiovisuais, artistas ou não, a gente precisa saber concentrar informação, com muita precisão, se quiser atravessar maremoto de bits da contemporaneidade. Por outro lado, se a gente mesmo, como espectador, quiser navegar com saúde e prazer neste maremoto, é preciso saber concentrar-se naquilo que realmente importa para cada um, sem cair no canto de sereia dispersivo da informação fácil.
Bem, ficou um pouco pomposo eu colocar dessa maneira, mas é assim: o digital – pra voltar àquela pergunta do começo (eu sou bem não linear [risos]) é uma linguagem. Toda essa instância - que a gente chama de ciberespaço, de internet, qualquer nome que se dê a isso – é linguagem. Com o computador ficou muito claro, na prática mesmo, que a linguagem constrói o mundo. Essa imagem que eu estou vendo agora, quer dizer, minha própria imagem na tela do Skype pela câmera, ou a foto da Jasmin (da Casa Redonda, produtora do Claro Curtas) ou Microsoft Outlook que está aberto aqui, atrás delas tem uma linguagem. Alguém escreveu isso em alguma linguagem de programação pra compor uma vida, um universo feito de imagem e de som. Com a cibernética, ficou muito claro que qualquer coisa que vive é linguagem. Que é a linguagem que de fato constrói o mundo. Tanto a internet quanto a arte são linguagens e a própria vida é uma linguagem. Aquela idéia que está até nas religiões proféticas - bíblicas – e no alcorão também, de que “no princípio, era o verbo”. É o verbo que constrói o mundo, o verbo é que dá sentido ao caos. Com a internet não é diferente. Então, para você saber lidar com ela, com esse novo espaço, com esse mundo, com essa instância, é preciso entender a internet como linguagem. É preciso adequar a linguagem àquilo que você quer, isso quer dizer o seguinte: é preciso usar uma gramática de vida pra se relacionar com a internet. E nessa gramática você tem de ter tudo o que uma gramática precisa: regras, disciplina, etc. E aqui estou eu, o cara mais indisciplinado – falando totalmente da boca para fora sobre disciplina de linguagem [risos]... Não consigo aplicar isso à minha própria vida! Mas eu percebo que precisamos ter uma gramática clara e disciplinada de vida, sabe? A idéia de que disciplina é liberdade é muito real. E hoje em dia é ainda mais real do que sempre foi. É preciso colocar parâmetros, leis, na sua atuação para não se deixar levar.
AM: Eu já ouvi muitas pessoas falando sobre essa liberdade de aprendizagem. O biólogo Humberto Maturana diz que a vida é um “linguajear” permanente; e o educador Jean Piaget diz que viver é aprender. Eu acho que a tecnologia está trazendo para a nossa forma de pensar a questão da biologia, da vida, não é? A lógica de estarmos vivos é o que nos diferencia desse mundo em que a mecânica está cada vez mais próxima das percepções do ser vivo. Às vezes a gente se acha errado na nossa forma meio caótica de lidar com o mundo, como pessoas que se apropriam dessas novas tecnologias. Será o caos o caminho?
CN: É bem complicado. Qual é essa disciplina, eu não sei. A gente em geral ainda não sabe, é tudo muito novo. Eu suponho que tenha de ser dinâmica. A disciplina pode passar a idéia de algo engessado, algo estático que quer dizer congelado, solidificado. Mas, a disciplina precisa ser dinâmica também A gente tem que usar uma coisa parecida com a que os escravos usaram quando inventaram a capoeira. Estavam inventando uma dança e estavam inventando uma luta também. Na verdade, estavam inventando uma luta disfarçada de dança. Tão disfarçada de dança, que de fato é uma dança também. Essa idéia de que parece dionisíaco, mas é apolíneo. Mas, ao parecer um tanto dionisíaco, meio a lá Fernando Pessoa “fingindo tão completamente” ser dionisíaco, que acaba sendo dionisíaco, mesmo sendo apolíneo. Para essa disciplina, a gente tem que pensar numa coisa coma corrente elétrica alternada que também é modulação e demodulação. Uma disciplina que saiba dançar com a realidade, que saiba interagir, mas sem deixar de ser disciplina. Nos últimos 5 anos da minha vida, toda virada de ano, eu confesso que peço disciplina para mim mesmo, mas, na verdade, eu não consigo.
AM: Você está falando para um universo possível de novos realizadores, que tem mil ideias na cabeça, que têm possibilidade de difundir conteúdo livremente pela Internet, que se expressam ou querem expressar suas ideias por meio do audiovisual, que tem acesso à toda informação do mundo, mas precisam de um bom grau de discernimento para poder compor aqueles fragmentos de informação em algo que seja legível, útil, belo ou que possibilite um aprendizado de fato. Ou seja, existe uma geração aí que pensa, age, vive, que tem uma perspectiva que a humanidade nunca antes pôde experimentar. O que você diria para esses jovens?
CN: Eu tenho muita dificuldade de dar uma mensagem assim. As coisas básicas não mudaram. Há talvez novas coisas básicas que entraram no jogo, mas as anteriores não deixaram de ser válidas. Então eu acho que eu sugeriria uma curiosidade genuína em relação à vida. E aproveitar este presente que a tecnologia está nos dando. Esse presente que também pode se transformar num Cavalo de Tróia, o tipo de presente que funciona às avessas. Mas a gente tem que aproveitar isso como um presente bom, sei lá, aproveitar essa miniaturização das coisas tecnológicas, que estão ficando mais disseminadas mesmo. Este é o desafio. Eu passei um período da minha história em que para se fazer um vídeo precisava de uma equipe grande. Hoje em dia, só precisa de mim e da câmera. Saiu agora uma câmera incrível da Cânon, a 5-D, é uma câmera de fotografia que filma melhor que as câmeras das grandes redes de televisão. Então, saber usar isso como um presente é o caminho para fazer valer todas aquelas coisas, todos aqueles pré-requisitos anteriores à própria tecnologia, que são a curiosidade, a entrega para a vida, a entrega para o mundo. Acho que é a assim que a gente pode realizar e se realizar, se entregando para as coisas, o mais abertamente possível.
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