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Artigos & Entrevistas


Revolução tecnológica – Um movimento mundial

O diretor Cao Hamburger, jurado da segunda edição do Claro Curtas, fala sobre audiovisual e suas expectativas sobre os projetos inscritos no Festival deste ano.

22/01/2010

André Martinez: Então, Cao, para começar: na sua concepção, o que é ser digital?

Cao Hamburger: Ser digital é o nosso tema do Claro Curtas, não é mesmo? Eu acho que começaria fazendo uma comparação com a revolução industrial. Vivemos a revolução digital agora.  O momento é um pouco amedrontador. A gente não sabe até onde o digital nos levará, não é?    É tudo muito novo. Na década de 1990, ainda estávamos começando a engatinhar, a dar os primeiros passos na Internet. E hoje ainda me sinto um tanto ignorante a respeito disso tudo.  Acho que a comunidade inteira está passando por isso. Então, é um momento de transformação e também de um certo mistério em relação ao futuro. 

AM: Você acha que o cinema se desenvolveu um pouco na carona dessa realidade histórica? Quer dizer, o cinema não seria possível se não fosse criada uma plataforma tecnológica que o viabilizasse, não é mesmo? Na verdade, a arte como um todo tem sempre essa relação com a tecnologia. 

CH: O interessante é que a arte audiovisual, a imagem em movimento, com som e tudo mais, é mesmo fruto do avanço tecnológico. É uma forma de expressão que só foi possível através das novas tecnologias. A parte mecânica das câmeras e dos projetores, a química da celulose e dos filmes, as técnicas de captação de som, são todos avanços pré-digitais, mas surgiram mesmo graças à evolução tecnológica da humanidade.

AM: O cinema cria uma lógica para sua realização, que está baseada na apropriação desses meios tecnológicos, e também nas possibilidades de reprodução dessa arte. Queria saber um pouco como é a sua visão dessa realidade atual em que as pessoas levam a câmera no bolso.

CH: No momento, o que mais me surpreende é a quantidade de imagens que estão sendo produzidas e reproduzidas. Esse alcance nunca seria possível com as técnicas analógicas. É uma quantidade enorme de imagens. E para servem essas imagens? São câmeras de segurança, de celular, no Skype e em tantos outros espaços cotidianos. Atualmente, é possível armazenar muitas imagens no computador e acessar imagens em portais e sites, blogs, redes sociais. Você tem várias opções para acessar as mais variadas imagens em movimento. Se você for pensar, há cinco anos, a quantidade de imagens em movimento que se consumia era muito menor. Com a televisão, essa velocidade de consumo aumentou muito, mas atualmente com a Internet é algo inacreditável! Quase tudo o que acontece hoje é documentado com uma câmera. Da morte do ditador do Iraque [Saddam Hussein], ao assalto seguido de morte do rapaz do Afro-Reggae, no Rio. Enfim, a quantidade de imagens disponíveis, e como você pode acessá-las e difundi-las, é impressionante.

Em termos artísticos, acho que ainda estamos um pouco perdidos. E não digo isso de maneira pejorativa, acho um momento interessante. Há algumas coisas bacanas, mas eu diria até que há 20 anos estávamos mais bem servidos – em termos artísticos – de obras audiovisuais. Acho que, nos últimos anos, o nível artístico do audiovisual declinou em um ritmo inversamente proporcional à quantidade de imagens que estão sendo produzidas. Ainda estamos procurando novas ideias e tentando voltar a produzir obras audiovisuais de impacto, de qualidade, como as que eram produzidas no sistema pré-digital. E esse é um movimento mundial.  

AM: Pelo que você coloca, falamos sobre a coexistência de duas realidades. Por um lado, o cidadão comum passa a ter acesso, como nunca antes na história. Por outro existe um segmento, que é aquele que produz o audiovisual enquanto linguagem, negócio, ou possibilidade artística. Existe alguma convergência possível entre esses dois universos? 

CH: Eu acho que estamos vivendo um processo com muitas possibilidades, muitas novidades. São novos formatos, novos veículos e novas formas de expressão. Sinto esse momento interessante, rico em possibilidades, em desafios, mas ainda pobre em realizações de qualidade. No momento, estou fazendo um trabalho que eu gosto muito. Além dos filmes que eu adoro fazer e das séries de televisão - como Filhos do Carnaval -, um trabalho que realmente me marcou foi a série que fiz para a TV Futura, chamada No Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais. É mais ou menos sobre isso que estamos falando. Vejo muitas coisas boas nesse movimento e não só no audiovisual, mas também na música popular, não só a brasileira como a mundial. 

AM: Nós estamos aqui frente a uma comunidade de realizadores audiovisuais que querem fazer vídeos porque dispõem da tecnologia para isso. O que você diria para quem vai inscrever trabalhos no Claro Curtas? Como sair do lugar comum, como utilizar e se apropriar dessas novas possibilidades para criar uma obra audiovisual? 

CH: Olha, eu estou muito curioso para saber o que é que vai vir no festival. Eu aceitei o convite para participar como jurado do Claro Curtas justamente pelo grande interesse que tenho em saber para onde devemos ir com tantas possibilidades. O que eu diria às pessoas que vão participar seria: “surpreendam-me!”. É isso o que eu espero: eu espero encontrar caminhos que me alimentem como profissional, que me inspirem em futuros projetos. Então, eu assumo o meu lugar, minha condição de curioso, de alguém com o coração aberto para ser surpreendido.

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