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Claro Curtas entrevista Moira Toledo
Confira a entrevista com Moira Toledo, Professora de Direção Audiovisual da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) com mais de 20 projetos realizados em todo o Brasil.
23/05/2011
Moira Toledo, construindo educação audiovisual
Quando chegou ao cinema, como estudante universitária, Moira Toledo descobriu que sua maior motivação não estava nos sets de filmagem, mas na sala de aula – ainda que não uma sala das mais tradicionais.
Desde então, sua trajetória se confunde com a construção do que vem sendo chamado de “educação audiovisual”: uma proposta de levar o vídeo, seu suporte e sua plataforma criativa, intelectual e emocional para espaços de ensino.
Professora de Direção Audiovisual da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Moira defendeu tese de doutorado sobre educação audiovisual na Universidade de São Paulo (USP) em 2010. Ela atua na área desde 2000, com mais de 20 projetos já realizados em todo o Brasil.
Moira conta que acompanha o Claro Curtas desde sua primeira edição. E não é à toa. O festival está em constante sintonia com propostas educativas ligadas ao audiovisual e neste ano enviou gratuitamente 10 mil kits educativos para escolas, pontos de cultura, cineclubes, universidades e outros espaços de ensino para estimular o uso dessa linguagem em práticas pedagógicas.
Confira a entrevista.

Moira Toledo
Qual é a sua história pessoal com o cinema e por que você decidiu se tornar uma educadora audiovisual?
Depois de cursar um semestre de Ciências Sociais na USP, decidi estudar cinema e, por dois anos e meio, me concentrei em realizar curtas e aproveitar ao máximo a estrutura da universidade. Mas não tinha o mesmo ímpeto de muitos dos meus colegas, que buscavam oportunidades para se inserir nas produtoras, em longas-metragens e em projetos de TV. Amo cinema e adoro dirigir, mas não sou uma "pessoa de set". Não me sinto completa nesse espaço. Logo surgiu a oportunidade de ministrar uma oficina para adolescentes em uma escola pública no Pico do Jaraguá, em São Paulo. Não me esqueço da sensação de plenitude que senti. Isso mudou minha vida, dando a ela novo foco e sentido. Daí em diante, continuei produzindo meus filmes, mas passei a me dedicar quase integralmente a desenvolver métodos criativos para ensinar e meios para formar e administrar equipes de educadores e gestores. Tudo isso me levou ao doutorado.
Quando você começou a trabalhar com educação audiovisual, em 2000, havia literatura especializada ou gente com quem conversar a esse respeito?
As coisas estão mudando aos poucos. Pessoas com as quais dialogar, sem dúvida, há muito mais. Agora, nós, gestores e educadores, nos encontramos e conversamos, especialmente com o surgimento revolucionário dos Pontos de Cultura, a criação de redes virtuais e fóruns de debate, bem como a partir do aumento de instâncias de exibição e fomento à produção audiovisual de oficinas, como as do KinoOikos Formação do Olhar, do Festival de Jovens Realizadores do Mercosul, do Festival Favela É Isso Aí, do projeto Visões Periféricas e outros exemplos.
Quanto à literatura, havia materiais acadêmicos interessantes (Clarice Alvarenga, Mauro Aguiar, Mauro Reis, Luciana Rodrigues) e históricos, como o belíssimo livro do Luiz Fernando Santoro sobre o movimento de vídeo popular (A imagem nas mãos. O vídeo popular no Brasil, Editora Summus). Mas não havia muito sobre métodos de ensino, ou seja, algo que pudesse ser útil para aqueles que atuam de fato no campo. De lá para cá, destaco uma publicação importante, organizada pelo Ricardo Fabrino e pela Juliana Leonel, que fazem parte da equipe de uma das ONGs que mais admiro, a Associação Imagem Comunitária (AIC) de Belo Horizonte: Audiovisual comunitário e educação: Histórias, processos e produtos (Autêntica Editora).
O fato é que, apesar de o tema estar menos "marginal" e os profissionais serem agora mais reconhecidos, ainda não existe de fato um campo que possamos chamar de "educação audiovisual". É urgente que o façamos existir, para podermos aprofundar e profissionalizar nossas práticas e nossos profissionais.
Qual a função, a seu ver, das oficinas de audiovisual e como elas podem facilitar a vida de crianças e jovens?
Para mim, o grande diferencial do ensino do audiovisual é que ele atua em múltiplas instâncias: estimula diferentes tipos de inteligência (visoespacial, matemática, musical, de linguagem, corporal, inter e intrapessoal), incorpora os mais diversos perfis de aluno e promove o desenvolvimento de habilidades emocionais e intelectuais que constituem desafios crônicos para as escolas formais. Por exemplo, ensinam como pesquisar além da superfície, ouvir e fazer críticas, mediar o mundo através de conceitos, entender o método científico como ferramenta fundamental para experimentar no mundo, participar e interagir em uma sociedade democrática, dentre outras características extremamente desejáveis.
Como é possível aproveitar ao máximo o ensino audiovisual?
O ensino audiovisual, como qualquer prática de ensino, pode ser "careta" ou "moderninho". Mas o audiovisual tem características tão singulares que o simples ato de orientar jovens nos diferentes passos que constituem a produção audiovisual dá resultados, sem muita margem para erro. O fato é que o ensino "careta" está completamente fora de moda nas ONGs e outras entidades em que atuei. A literatura mais comum no terceiro setor é a construtivista, mas, na área do ensino audiovisual, o que dá os melhores resultados é a associação com as metodologias democráticas e libertárias. Na prática, isso significa que os melhores resultados surgem quando o audiovisual é ensinado dentro de uma perspectiva participativa, dando voz aos alunos, incitando à pesquisa, à comparação científica, à formação de repertório e ao ato de fazer e ouvir críticas respeitosamente, estimulando o senso estético e o pensamento abstrato.
Na sua opinião, quais as vantagens da prática e da teoria nessa área? Em que ordem elas devem acontecer?
Paulo Freire costumava dizer que é a partir da curiosidade que se desperta o interesse pelo aprendizado. Uma curiosidade que, inicialmente ingênua, vai se tornando científica e, com isso, dá origem ao conhecimento. Todo aluno de uma oficina audiovisual quer mesmo é fazer filmes. Então, nada melhor que dar a ele o que quer e espera. Costumo brincar: "Só não pode uma coisa: jogar a câmera no chão". Então, entrego a câmera na mão dos alunos. Depois que eles experimentam, testam e, especialmente, erram, eles entram num estado muito mais adequado ao aprendizado, que é essa curiosidade ingênua, esse desejo de entender melhor. E o encontro com a teoria, ao contrário da lousa da qual se copia, deve ser fresco, vivo, repleto de paixão pelo tema. Na verdade, a melhor coisa é um professor apaixonado, porque diante dele somos capazes de entender até física quântica!
O audiovisual cabe em aulas de português e matemática, por exemplo?
Sem dúvida. Cabe num sentido bem amplo se pensarmos que diversos exercícios podem ter como resultado a produção de vídeos e que no processo de realizar um filme os alunos vão passar pelas mesmas transformações positivas que descrevi antes. Mas cabe também num sentido mais profundo – e talvez divertido –, que é a associação efetiva de certos aspectos da produção audiovisual com aspectos do currículo escolar. Nesse sentido, a criação de roteiros pode ser estimulada (como há anos estimulamos a poesia e a prosa) e ser até um atrativo do curso de português. De repente, o professor que está ensinando a estrutura do conto pode estimular os alunos a escrever um conto e, depois, instigá-los a adaptar para o formato de roteiro – e assim estudar também a estrutura dos diálogos. Em matemática, posso apontar mais alguns pontos de associação: para entender profundamente o funcionamento de uma câmera fotográfica ou do cinema, é preciso entender de fração. Então – por que não? –, no ano em que é necessário estudar fração, que isso se faça utilizando como projeto o estudo de uma câmera de cinema. Esse estudo poderia ser mulitidisciplinar e incluir também ciências, abordando o olho e seus paralelismos com a lente cinematográfica. Há muitos pontos de encontro.
Você acha que o Claro Curtas contribui nesse contexto?
Acho o projeto fundamental, pois estimula esse imenso campo que é a educação audiovisual popular no Brasil, oferecendo uma premiação significativa e, ao mesmo tempo, estimulando a produção de realizadores independentes, não profissionais e não ligados (ainda) a qualquer polo de formação ou produção. Ele realmente provoca e estimula locais ainda não alcançados pelas ONGs e pelo poder público. Sempre incentivo muito meus alunos para que enviem suas produções a festivais e fico bastante orgulhosa quando são premiados. Trabalho há sete anos no Festival de Curtas-Metragens de São Paulo – que fará neste 2011 sua 22ª edição – e posso dizer: ele é um festival em que as oficinas permitem aos participantes alcançar o seu ápice de autoestima e de realização pessoal.
Em sua opinião, qual a importância de compartilhar materiais didáticos específicos na internet, como os que disponibilizamos no site do Claro Curtas?
A pesquisa é um dos elementos centrais em uma proposta pedagógica democrática. Acredito que o mais importante numa oficina é ensinar aos alunos uma maneira que lhes permita controlar e planejar seu próprio processo de aprendizado. Trata-se do famoso "aprender a aprender", que, para mim, é mais aprender a pesquisar e a filtrar, o que é importante dentro da enxurrada de informações que é a internet. Assim, materiais como os fornecidos pelo site do Claro Curtas são fundamentais para que o aluno saiba sempre de onde partir e possa encontrar a informação quando estiver pronto para buscá-la.
Há algum site que você gostaria de indicar?
Indico dois: o do Tela Brasil e o do KinoOikos.
Quais os principais desafios da educação audiovisual a seu ver?
Considero o maior desafio, sem dúvida, que as experiências do terceiro setor sejam sistematizadas e se tornem ponto de partida para o desenvolvimento de políticas já testadas. E que os integrantes desse terceiro setor ativo e exemplar se tornem conselheiros dos responsáveis por escrever as leis e os projetos públicos. Assim, a experiência popular pode se materializar em política, sem efeitos inesperados ou artificiais.
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