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03.12.08 - Entrevista - Stephen Hopkins

 

Foto do Vencedor do Festival segurando o cheque de 50mil reaisCom mais de 20 anos de experiência em cinema e televisão e uma das mentes por trás de um dos maiores fenômenos de audiência dos últimos anos – a série “24 Horas”, com Kiefer Sutherland -, o cineasta Stephen Hopkins é o representante internacional no júri do festival Claro Curtas 2008. E essa não é sua única relação com o Brasil: seu próximo longa-metragem, Chasing Bohemia, será ambientado no Rio de Janeiro e será a primeira produção da GreenGo Productions, empresa que ele acaba de formar, com sede no país. Em entrevista exclusiva ao site do Claro Curtas, ele falou sobre esses projetos, além de traçar um panorama da produção audiovisual atual e da importância de festivais que revelem novos talentos.



Qual é, exatamente, o impacto da internet na indústria cinematográfica? Se por um lado os downloads ilegais provavelmente afetam a bilheteria, por outro, nunca foi tão fácil para qualquer um produzir conteúdo que possa acabar sendo visto por milhões de pessoas. Qual o limite da indústria?


A indústria cinematográfica tem que se ajustar a essa recente liberdade de expressão adquirida pelos usuários da internet. O infeliz episódio do vazamento do filme “Tropa de Elite” para um grande número de pessoas antes de sua finalização deve ter sido assustador para seus produtores, mas, ao mesmo tempo, pode ter ajudado a promover o filme para um público curioso em assistir à versão devidamente finalizada. Não posso dizer com certeza qual foi o efeito desse episódio na bilheteria, mas este pode ser um modelo fascinante para a promoção de filmes no futuro.


A internet é, claramente, uma ferramenta incrível para conscientizar a platéia sobre a existência de projetos cinematográficos e de mídia; para promovê-los. Portanto, o lado “bom” da internet deve ser considerado junto com o lado “ruim”. Agora, através do YouTube e de sites similares, os produtores de filmes podem promover seu próprio trabalho – basta olhar para a influência que isso já tem na indústria musical.


Obviamente a indústria televisiva, a musical e a cinematográfica têm departamentos inteiros dedicados ao monitoramento desse tipo de site, buscando tendências, idéias e talentos desconhecidos. Em algum momento, as pessoas estarão fazendo download de todo o conteúdo televisivo e cinematográfico que consomem, cortando assim custos enormes de distribuição e as grandes corporações cinematográficas terão que competir para continuar no mercado! A censura de conteúdo também será uma interessante área de discussão.

 

Qual é a importância de dar destaque para esse tipo de talento bruto através de festivais como o Claro Curtas?


Foto do Vencedor do Festival segurando o cheque de 50mil reaisA produção cinematográfica em larga escala é um processo caro, que é feito a longo prazo e consome muito tempo. Por isso, normalmente é feito dentro de um ambiente corporativo, que exige a expertise de muitas pessoas. Essa realidade pode acabar criando uma “bolha” dentro da qual são produzidos os filmes, o que pode afastá-los demais da vida real contemporânea.


Algumas vezes, esse sistema leva a um conteúdo mais hermético, e as razões originais que levaram à produção daquele filme, ou sua visão original, são apaziguadas ou perdidas. Entretanto, o talento bruto trazido à tona por festivais como o Claro Curtas pode lembrar a todos das idéias instintivas e originais que surgem a partir da imaginação moderna e das emoções autênticas expressas – que algumas vezes acabam sendo muito manipuladas ou simplificadas.

 

Você está trabalhando em um novo projeto, Chasing Bohemia (algo como “Perseguindo a Boemia”), que é baseado num livro que relata a experiência de uma australiana vivendo no Rio de Janeiro. O que te levou a esse projeto? Você se identifica de alguma forma com o livro de Carmen Michael?

 

Eu conheci a Carmen através de amigo australianos em comum, e ela me levou para um tour pelos bairros tradicionalmente boêmios e alternativos do Rio de Janeiro, como Lapa, Santa Tereza e arredores. Eu sempre lutei para descobrir e explorar as cidades do mundo que oferecessem experiências únicas, principalmente artísticas, que estivessem fora do senso comum, e o Brasil é um país que ainda preserva uma cultura muito particular e de múltiplas influências. Carmen me mostrou a música antiga e a nova, a arte e um estilo de vida que eu admirei por ser tão corajoso e essencialmente excêntrico – vivendo o presente! Isso é material extraordinário para um filme.

 

Parece que a sua relação com o Brasil vai muito além de usá-lo como cenário para seu filme. Conte-nos um pouco sobre a sua empresa GreenGo Productions, sediada aqui, e suas intenções com ela.

 

Em qualquer lugar que eu visito ou em que vivo, sinto-me atraído e curioso por estudar as manifestações artísticas que são realmente próprias. Claro que o Brasil é um lugar emocionante, cheio de vida e muito divertido em diversos aspectos, mas também preserva uma profunda tradição na maneira de realizar arte, cultura, música, design e cinema – todos originados de sua própria identidade étnica, espiritual e econômica.

Quando criamos a GreenGo, não queríamos fazê-lo com pressa. Nós buscamos aqui o máximo de bons artistas e especialistas no mundo do entretenimento que conseguimos encontrar e pesquisamos muitos filmes e programas de TV na tentativa de entender tudo o que fosse possível sobre a história da mídia aqui, antes de planejar qualquer projeto. Obviamente, tentamos trazer nosso próprio conhecimento e nossa sensibilidade ao que produzimos e tentamos fazer filmes internacionais que envolvam a cultura local e sejam falados tanto em português como em inglês – quebrando dessa forma as barreiras culturais e de idioma que às vezes isolam o Brasil. Pretendemos produzir tanto filmes menores quanto internacionais, tanto de cinema quanto de TV, e até agora fomos muito bem recebidos.

 

O Brasil é uma fonte interessante de talentos para a indústria cinematográfica? Quais são as suas referências entre os filmes e diretores brasileiros?

 

Foto do Vencedor do Festival segurando o cheque de 50mil reaisJá encontramos tantos artistas novos e talentosos por aqui! Só no ultimo ano, assisti a “Estômago”, “Tropa de Elite”, “Ensaio Sobre a Cegueira” e pretendo assistir logo a “Última Parada 174” e ao novo filme de Walter Salles. A visão inovadora e a qualidade na realização dos filmes brasileiros são sensacionais. Estou também impressionado com a variedade de documentários a que assisti num festival no ano passado – muito pessoais e emotivos. São tantos filmes impressionantes… Os óbvios que vêm à mente: “Pixote”, “Dona Flor e Seus dois Maridos”, “Orfeu Negro”, “Ônibus 174”, “Bye, Bye Brasil”, “Central do Brasil”, “Cidade de Deus”, “O Cangaceiro”... Eu descobri tantos mais, mas não dá pra enumerar todos aqui.

 

Quando você era um novato na indústria, antes de participar de grandes filmes e produções como ‘Highlander’, você chegou a se inscrever em algum festival amador como o Claro Curtas?

 

Eu mergulhei diretamente na MTV e no mundo dos comerciais nos anos 80, como um artista de storyboard e diretor de arte no Reino Unido e nos Estados Unidos. Apesar de ter participado de diversos festivais, o Claro Curtas é absolutamente especial para mim.

Eu participo de diversas fundações de caridade que trabalham com jovens de baixa renda, ensinando-os como produzir seus próprios filmes e ajudando-os a descobrir habilidades que permitam que eles consigam empregos na indústria do audiovisual.

Desses festivais, o mais famoso é sediado em Los Angeles, chama-se Inner City Filmmakers e dele participam mais de 50 estudantes todos os anos. Eles são orientados por excelentes produtores, diretores, atores, roteiristas e agentes e têm de produzir seu próprio curta de 5 minutos, trabalhando em grupos pequenos com restrições de tempo e orçamento, como no mundo real. Essa fundação ajudou centenas de jovens a conseguir um emprego na indústria cinematográfica e é uma grande honra trabalhar junto a ela. Há um evento de graduação no qual são reproduzidos todos os filmes para suas famílias, amigos, orientadores e convidados da indústria. Esperamos conseguir estabelecer um braço dessa fundação aqui no Brasil.

 

Quanto ao tema do festival deste ano, “Diversidade e Inclusão Social”: qual é a melhor forma de explorá-lo sem parecer muito insosso ou politicamente correto? Você consegue lembrar de algum filme que tenha atingido esse objetivo?

Acho que esses assuntos – diversidade e inclusão social – são os que mais me motivam dentro da arte e do processo de contar uma história. Há tantos filmes sobre “adaptar-se” nas culturas dos Estados Unidos e da Europa que nem sei por onde começar. Personagens que se sentem como “estranhos” ou “outsiders”, que não são entendidos, que buscam pessoas semelhantes para estudar ou colaborar. Será essa a essência de ser um artista ou um ser humano?


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